“A opressão muitas vezes se alimenta do esquecimento.”

Antes de ser mineral, esta terra sempre foi território de vida.

Isis Medeiros

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Sobre a Exposição

Zona de Sacrifício:
Do Ouro ao Pó

O Vale do Jequitinhonha conhece bem os ciclos da promessa. Ao longo da história, diferentes projetos de “desenvolvimento” chegaram à região anunciando progresso, riqueza e prosperidade. Vieram o ouro e os diamantes, o algodão para exportação, os monocultivos, o eucalipto e a mineração. Hoje, o território volta a ocupar posição estratégica no cenário global com a expansão da exploração de lítio.

Considerado mineral fundamental para a chamada transição energética, o lítio é utilizado em baterias de carros elétricos, celulares, sistemas de armazenamento de energia e até armamentos. O Brasil ocupa atualmente o 6º lugar no ranking mundial de reservas, e cerca de 85% delas estão concentradas no Vale do Jequitinhonha, transformando a região em uma das principais fronteiras dessa nova economia mineral.

Mas o Vale é muito mais do que suas riquezas subterrâneas. Este território é também casa de povos indígenas, comunidades quilombolas e povos tradicionais que, há séculos, constroem formas próprias de viver, produzir e cuidar da terra, preservando saberes, práticas culturais e relações profundas com a sociobiodiversidade.

Zona de Sacrifício: do Ouro ao Pó nasce da convivência, da escuta e da observação atenta do território. As imagens reunidas nesta exposição registram paisagens, pessoas e memórias atravessadas por mais um ciclo de exploração.

Lembrar, aqui, é também um ato político. Preservar histórias, saberes e modos de vida é afirmar identidades e confrontar estruturas que historicamente tentaram apagá-las.

Esta exposição fala de memória, território e resistência.

Bacia do Rio Jequitinhonha
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Das reservas de lítio do Brasil estão no Vale
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Lugar no ranking mundial de reservas

Que futuro estamos criando em nome da transição energética?
Progresso para quem?

Contexto Global

Lítio: o metal do futuro

Entenda o mineral no centro da disputa

3 Li Lithium 6,941

O lítio é o metal mais leve da tabela periódica. De cor branco-acinzentada, é matéria-prima estratégica para a indústria tecnológica e de energia.

Encontrado em rochas (como espodumênio, lepidolita e petalita) e em salmouras (depósitos salinos subterrâneos).

Para que serve?

Baterias recarregáveis
Celulares, notebooks, carros elétricos, armazenamento de energia
Indústria farmacêutica
Antidepressivos e estabilizadores de humor
Graxas e lubrificantes
Indústria automotiva e aeroespacial
Vidros e cerâmica
Vidros resistentes ao calor e cerâmicas especiais
Armamentos
Ligas metálicas leves para indústria bélica
Reciclagem de baterias
Cadeia circular ainda incipiente no mundo

Reservas Mundiais

Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). 23 países possuem reservas de lítio, com estoque estimado de 98 milhões de toneladas.

🇨🇱 Chile
9,3 Mi t 46,6%
🇦🇺 Austrália
5,7 Mi t 28,9%
🇦🇷 Argentina
2,7 Mi t 11%
🇨🇳 China
2 Mi t 7,6%
🇿🇼 Zimbábue
310 mil t 1,1%
🇧🇷 Brasil
470 mil t 6º lugar
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Crescimento do faturamento
com lítio no Brasil (2022→2023)
R$ 336 mi 1º sem. 2022
R$ 1,4 bi 1º sem. 2023

Demanda mundial por baterias de íon de lítio

Setor automotivo — Fonte: Agência Internacional de Energia (IEA)

2021
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+65%
2022
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O Brasil no Cenário

Minas Gerais é o berço
do lítio no Brasil

1940
Primeiras descobertas
Identificação de depósitos de lítio em pegmatitos no Vale do Jequitinhonha (MG).
1991
Início da exploração industrial
Companhia Brasileira de Lítio (CBL) inicia extração em Araçuaí — única produtora do país por décadas.
2016
Corrida global acelera
Demanda por baterias de veículos elétricos dispara. Olhos do mundo se voltam para o Vale.
2020–2023
Explosão de processos minerários
Mais de 8.800 processos registrados na região. Multinacionais como Sigma Lithium, Latin Resources e AMG entram em operação ou fase de licenciamento.
2023
Recorde térmico
Araçuaí registra 44,8 °C — a maior temperatura oficial já medida no Brasil.

Exportação vs. Beneficiamento

Exportado como minério bruto
~92%
O lítio sai do Vale como concentrado mineral, sem processamento químico local. É beneficiado na China, Coreia do Sul e outros países.
Beneficiado no Brasil
~8%
Parcela mínima é processada localmente. O país exporta riqueza e importa tecnologia — um padrão colonial que se repete há séculos.
O Território

Vale do Jequitinhonha

85% das reservas brasileiras de lítio concentradas em uma única região

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Das reservas brasileiras de lítio estão no Vale
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Toneladas em reservas estimadas
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Processos minerários registrados na região
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Do material extraído das minas vira rejeito
O que é uma zona de sacrifício?

O termo designa territórios onde a exploração econômica se impõe sobre a vida, produzindo áreas oneradas pela sobrecarga de impactos ambientais que afetam de modo desproporcional seus habitantes.

No Vale do Jequitinhonha, isso se traduz em:

Poeira mineral constante sobre comunidades, lavouras e criações
Explosões diárias que racham casas e contaminam o ar
Risco elevado de silicose e doenças respiratórias
Disputa pela água em região de escassez hídrica histórica
Desestruturação de modos de vida tradicionais centenários
Racismo ambiental: impactos concentrados sobre comunidades indígenas, quilombolas e populações vulnerabilizadas

O lítio alimenta a promessa de um futuro mais limpo.
Mas a que custo — e para quem?

A riqueza sai. O rejeito fica.

Fontes: USGS — Mineral Commodity Summaries 2023 · Agência Internacional de Energia (IEA) · Agência Nacional de Mineração (ANM) · IBRAM · Serviço Geológico do Brasil · InvestNews · GESTA/UFMG

Circuito da Exposição
Terra Ancestral
01
Terra Ancestral
O Ouro
Lítio Verde
02
Lítio Verde?
O Progresso em Pó
Noturnas
03
Noturnas
Luz Artificial
Zona de Sacrifício
04
Zona de Sacrifício
Denúncia
Resistência
05
Ateliê da Resistência
Cultura Viva
01

Terra, Água e Origem

Terra Ancestral — O Ouro

O Vale do Jequitinhonha sempre foi território de terra, água, sociobiodiversidade e inúmeras riquezas. Aqui vivem, desde muito antes da colonização, povos indígenas, comunidades quilombolas e povos tradicionais, herdeiros de uma relação profunda com o território e com os três biomas que aqui se encontram: Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica.

Das mãos ancestrais nasce o barro transformado em cerâmica e arte, saber transmitido entre gerações e ligado à terra, às pedras e às águas que, de Minas Gerais à Bahia, sustentam a vida ao redor da Bacia do Rio Jequitinhonha.

Mas o Vale também carrega marcas profundas de violência. Desde a colonização, as chamadas “guerras justas” provocaram a expulsão de comunidades indígenas e a dominação violenta da terra em busca de diamantes, pedras preciosas e ouro.

Desde então, suas riquezas alimentam sucessivos ciclos de extração que transformam o território em um espaço permanente de disputa.

02

Lítio Verde?

O Progresso em Pó

No século XXI, uma nova corrida mineral atravessa o planeta. Minerais considerados estratégicos para a chamada transição energética — como lítio, cobalto, níquel e terras raras — tornaram-se peças centrais da economia global.

A descoberta de grandes jazidas de lítio no Brasil colocou o Vale do Jequitinhonha no centro de uma nova disputa global por minerais estratégicos. Cerca de 85% das reservas de lítio do Brasil estão concentradas no Vale do Jequitinhonha, onde extensas áreas já foram identificadas para exploração.

A mineração industrial transformou rapidamente a paisagem de pequenas comunidades, especialmente em Araçuaí e Itinga. Explosões, máquinas e caminhões levantam poeira mineral que atravessa casas, estradas, plantações e criações, alterando drasticamente a paisagem e aumentando o risco de doenças respiratórias como silicose, pneumonia e outras enfermidades associadas à atividade minerária.

Nas comunidades de Piauí, Poço Dantas e Ponte Piauí, moradores relatam a presença constante de um novo vizinho: gigante, invasivo e perturbador, que altera o silêncio das noites do sertão. Milhões de toneladas de rocha são removidas, e cerca de 94% do material extraído das minas transforma-se em rejeito, formando novas paisagens de resíduos.

Nesta série, o uso de luz artificial dialoga com o imaginário tecnológico associado ao lítio — considerado o “mineral do futuro”, presente nas baterias de dispositivos eletrônicos. Ao introduzir cores luminosas e uma estética tecnológica na paisagem do sertão mineiro, as fotografias tensionam o discurso do chamado “lítio verde” e revelam as estratégias de greenwashing que acompanham essa nova fronteira de extração.

0%
Do material extraído vira rejeito
04

Zona de Sacrifício

Enquanto empresas multinacionais, investimentos estrangeiros e novas infraestruturas avançam sobre o território, a paisagem do Vale do Jequitinhonha se transforma rapidamente. Explosões, poeira constante, caminhões e grandes cavas redesenham a terra. Montanhas são reviradas e a água torna-se cada vez mais disputada em uma região historicamente marcada pela escassez hídrica.

Milhares de pessoas convivem hoje com os impactos diretos da mineração, enfrentando mudanças profundas na saúde, no ambiente e nos modos de vida. Em 2023, Araçuaí registrou 44,8 °C, a maior temperatura já medida oficialmente no Brasil — um sinal extremo das pressões ambientais e climáticas que atravessam o território.

É nesse contexto que emerge o conceito de zona de sacrifício: lugares onde a exploração econômica se impõe sobre a vida, atingindo de forma desproporcional populações historicamente vulnerabilizadas e revelando dinâmicas de racismo ambiental.

A promessa continua sendo desenvolvimento e progresso.

Mas toda corrida por recursos naturais tem um custo — e ele quase sempre começa longe de quem lucra com ele.

0°C
Temperatura recorde em Araçuaí (2023)
A maior já medida no Brasil
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Processos minerários na região
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Ateliê da Resistência

Apesar das pressões históricas sobre o território, o Vale do Jequitinhonha segue sendo reconhecido por sua luta e resistência. Povos indígenas, comunidades quilombolas, agricultores, artistas e movimentos sociais continuam defendendo a terra, a água e os direitos dos povos por meio de cantos, poesias, arte, artesanato, festas e inúmeras formas de manifestação cultural.

Há mais de 200 anos, desde as chamadas guerras justas impostas pelos colonizadores contra os povos originários, o território enfrenta sucessivos ciclos de exploração. Ainda assim, a resistência se reinventa. Ela vive nas mãos que moldam o barro em cerâmica, nas cores da terra transformadas em intervenção artística, nos manifestos, nas procissões, nos encontros no mercado, nas atividades do campo e nas formas coletivas de organização e celebração.

Aqui, defender o território também significa cuidar da sociobiodiversidade, da diversidade de culturas e dos modos de vida que sustentam este lugar.

O futuro do Vale do Jequitinhonha — como o de tantos outros territórios no mundo — segue em disputa.

“A Terra não é um recurso. A Terra é nossa casa, e casa a gente cuida.”
— Ailton Krenak
Dados & Território

Mapas

Mapa Lítio — Vale do Jequitinhonha
Mapa do Lítio — Vale do Jequitinhonha
Mapa Zona de Sacrifício 1
Zona de Sacrifício — Reservas e Territórios
Mapa Zona de Sacrifício 2
Bacia do Rio Jequitinhonha

Processos Minerários de Lítio

Passe o mouse para fixar o mapa atual. A imagem alterna automaticamente entre os períodos.

Processos minerários 1973–2020 Processos minerários 2021–2023
1973 — 2020
2021 — 2023
Vozes do Território

Textos de Apoio

O esgotamento de recursos finitos e não renováveis em escala massiva global compromete a vida humana no presente e, claro, todas as gerações futuras.

Mudar o atual modelo de desenvolvimento agro-mineral-fóssil, nas bases em que se encontra, é uma questão de sobrevivência. Mais que isso: de um planeta habitável, de uma cidade com as mínimas condições de vida, de dignidade para todos e todas, hoje, agora e amanhã.

Não será a mineração que irá resolver o problema que ela mesmo ajudou a criar. A vida não acontece na propaganda. No mundo real, são as pessoas que podem e devem buscar todos os meios para que se façam ouvir. Para que os seus direitos sejam respeitados. Para que não morram esturricadas enquanto caminhões de lítio são exportados para o mundo inteiro continuar a alimentar a doutrina do desenvolvimento, agora turbinada para o que chamam de transição energética.

O Vale do Jequitinhonha é do povo que nele vive, que o constitui, que o formou e que merece respeito para determinar o que realmente quer e não quer. Respeitar isso, ainda que a contragosto para alguns, não é favor, é obrigação.

Maurício Angelo — Diretor do Observatório da Mineração. Doutorando em Ciência Ambiental pela USP e Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB.

Injustiça Ambiental e Governança do Clima: territórios em disputa no Vale do Jequitinhonha

As respostas preponderantes às mudanças climáticas consistem na profusão de alternativas tecnológicas voltadas à descarbonização e nas transações de créditos de carbono destinadas a compensar as incessantes emissões de gases de efeito estufa. Tal receituário, que mantém estrategicamente incólumes os fundamentos econômicos de um regime de acumulação e de degradação ambiental, provoca o crescimento da demanda por materiais associados à chamada “transição energética”. Nesse contexto, destaca-se o lítio, cuja extração se vincula à organização de cadeias globais de suprimento, exigindo o exame dos seus efeitos territorializados nas periferias do sistema-mundo.

É nessa conjuntura que se multiplicam os investimentos minerários no Vale do Jequitinhonha, revelando assimetrias de poder no tocante ao controle das condições naturais e à distribuição dos danos ambientais. Tais iniquidades indicam a configuração de “zonas de sacrifício”. O termo designa um processo de reordenamento territorial que, através da profusão de empreendimentos econômicos, produz, paulatinamente, áreas oneradas pela sobrecarga de agravos ambientais que afetam de modo desproporcional seus habitantes.

No entanto, a ampliação dos empreendimentos existentes ou a instalação de novos, têm sido sistematicamente disputadas. Comunidades locais e seus apoiadores denunciam as feições assumidas pela injustiça ambiental em seus territórios. Por essa via, contestam a lógica que comanda a atual governança do clima e demonstram que as “zonas de sacrifício” não são consequências inevitáveis do progresso ou efeitos colaterais do mesmo, mas projetos políticos contingentes que precisam ser tensionados e revistos.

Raquel Oliveira, Marcos Zucarelli, Priscilla Rumin — Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais – GESTA/UFMG

Memória e esquecimento estão em permanente tensão, pois lembrar implica selecionar o que deve ser preservado e o que será apagado. Nesse processo, grupos historicamente dominantes muitas vezes controlam quais narrativas são valorizadas, enquanto comunidades marginalizadas têm suas histórias silenciadas. Assim, reivindicar memória torna-se um ato político de resistência.

Para as populações tradicionais e outros grupos socialmente excluídos, preservar suas memórias, suas tecnologias sociais e jeitos de viver significa afirmar identidades, fortalecer vínculos com o território e confrontar estruturas de poder que historicamente buscaram apagar suas experiências e conhecimentos.

Seguindo essa esteira de pensamento é o que acreditamos e o que celebramos ao receber a mostra fotográfica e documental da artista Isis Medeiros, que através de suas lentes sensíveis nos impacta e nos faz lembrar o que o mundo na sua insana corrida por ganhos insiste em nos fazer esquecer. A opressão muitas vezes se alimenta do esquecimento. Reconhecer traumas do passado é o primeiro passo para garantir que eles não se repitam!

Tatiana Sena — Docente IFNMG Campus Araçuaí

Texto a ser inserido.

Texto a ser inserido.

Do ouro ao pó: cultura popular e disputa ideológica no Vale do Jequitinhonha, Brasil

Há pouco mais de 50 anos, nascia, na cidade de Araçuaí, em Minas Gerais, o Coral Trovadores do Vale. Iniciativa de Frei Chico, um frade holandês naturalizado brasileiro, acompanhado de pessoas locais, o coral traz em seu repertório, de mais de meio século, cantos de roda, cantos de trabalho, louvores religiosos e danças, recolhidos em pesquisa realizada em diversas comunidades, na companhia da então artesã, hoje Mestra Lira Marques (Oliveira; Oliveira, 2021). Um repertório que evoca a vida simples e enraizada nas águas, na terra, nos caminhos e nos saberes do Vale do Jequitinhonha. Cantos que dizem respeito a um modo de existir, que revelam uma territorialidade que escapa à lógica da mercantilização da natureza. Cantos que revelam um território vivo, tecido por relações de pertencimento, trabalho e cultura.

No ano de 2025, em apresentação do Coral Trovadores do Vale, no Teatro Municipal Santa Izabel, em Diamantina-MG, após entoarem a música “Canoeiro”, de cujos versos destaca-se “Canoeiro, canoeiro, o que é que trouxe na canoa? Trouxe ouro, trouxe prata, trouxe muita coisa boa”, Fatinha, integrante do Coral e mestre de cerimônias, fez a seguinte reflexão: “além de alimentos que eles conduziam nas canoas, eles conduziam ouro também, da nossa região. Hoje, a briga lá é o lítio, mas o ouro foi muito também. E a cidade não ficou rica por causa de ouro, levaram tudo. A mesma coisa está acontecendo agora”.

Essa fala introduz uma chave interpretativa importante para a compreensão das continuidades históricas da exploração mineral no Vale do Jequitinhonha, conectando diferentes ciclos extrativos sob uma mesma lógica de expropriação territorial. A intervenção de Fatinha atualiza o passado e evidencia a permanência de uma dinâmica em que o território é fonte de riqueza, mas não de redistribuição. Essa análise dialoga com Svampa (2019) ao tratar do neoextrativismo, quando evidencia a persistência de um padrão de acumulação baseado na exportação de recursos naturais, agora sob a narrativa da inevitabilidade da transição energética. A substituição do ouro pelo lítio ou, a passagem “do ouro ao pó”, não representa uma ruptura estrutural, mas uma atualização das formas de inserção subordinada do território na economia global. Outrossim, aponta para aquilo que Acselrad (2002) identifica como desigual distribuição dos benefícios e dos danos ambientais. A riqueza extraída não se traduz em desenvolvimento local, enquanto os impactos permanecem no território.

Por fim, destaca-se que no decurso da disputa ideológica, os sujeitos do Vale do Jequitinhonha produzem interpretações próprias sobre os processos que os afetam, sobre o território e seu futuro, tensionando a narrativa empresarial de desenvolvimento sustentável e tornando ainda mais acirradas as lutas no território.

Vanessa Juliana da Silva — Docente, Pesquisadora e Extensionista do Observatório dos Vales e do Semiárido Mineiro (OVSM), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

O paradoxo da transição energética

A transição energética deixou de ser apresentada como alternativa e passou a ser tratada como solução inevitável para a crise climática. Ainda assim, há uma contradição silenciosa nesse discurso: enquanto se fala em energia limpa, pouco se discute sobre a origem dos materiais que tornam essa transição possível.

Minerais como lítio e terras raras são peças-chave para tecnologias consideradas sustentáveis - estão nos carros elétricos, painéis solares e turbinas eólicas. Mas a pergunta que raramente ganha protagonismo é: a que custo esses materiais são extraídos?

A mineração, base dessa nova economia, segue operando sob a mesma lógica histórica: extrativista, intensiva e, muitas vezes, violenta. Trata-se de uma atividade que transforma paisagens, contamina solos e águas e impõe riscos constantes às populações dos territórios explorados. Mais do que impactos ambientais, há uma dimensão social profunda: comunidades deslocadas, modos de vida interrompidos e direitos frequentemente ignorados.

Esse modelo revela um paradoxo incômodo: a transição energética, que deveria representar avanço, pode reproduzir as mesmas práticas que historicamente degradaram o meio ambiente e aprofundaram desigualdades. Mudamos a fonte de energia, mas não necessariamente a lógica de exploração.

Projetos como a exposição Zona de Sacrifício ajudam a tornar essa contradição visível. Ao lançar luz sobre territórios como o Vale do Jequitinhonha - onde a mineração de lítio avança sobre comunidades e recursos naturais -, a iniciativa evidencia que a chamada “energia limpa” carrega impactos muitas vezes invisibilizados.

O Instituto Camila e Luiz Taliberti defende que esse debate precisa avançar. Para nós, não basta substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis se a base material dessa transição continua sustentada por uma mineração predatória.

Falar em transição energética exige ampliar o olhar. Trata-se também de promover uma transição na própria mineração: sair de um modelo puramente extrativo, com baixa agregação de valor e altos impactos socioambientais, para práticas que incorporem responsabilidade ambiental, justiça social e escuta ativa das comunidades.

Sem essa mudança, o risco é evidente: trocar uma crise por outra. Porque não existe energia limpa quando sua origem continua sendo marcada pela destruição.

Instituto Camila e Luiz Taliberti
Audiovisual

Vídeos

Documentário
Chico
Making Of
A Fotógrafa
Isis Medeiros

Isis Medeiros

Isis Medeiros é fotógrafa documental, fotojornalista e realizadora audiovisual brasileira. Sua produção investiga violações de direitos humanos, crimes ambientais e os impactos dos grandes empreendimentos sobre comunidades tradicionais e populações marginalizadas.

Com uma trajetória profundamente ligada aos movimentos sociais populares, sua prática entrelaça arte, política e memória coletiva, resultando em narrativas visuais de forte impacto social.

É autora do fotolivro 15:30 (2020), uma leitura visual do desastre-crime provocado pelo rompimento da barragem da Samarco/Vale-BHP em Mariana (MG). Esse trabalho integra acervos do Museu de Arte de São Paulo (MASP), da Biblioteca Nacional da França (BnF) e do Instituto Moreira Salles (IMS).

Idealizadora da premiada série Mulheres Cabulosas da História, que lhe rendeu a Medalha Clara Zetkin.

Atualmente, por meio do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, desenvolve um projeto de longa duração sobre a corrida do lítio no Vale do Jequitinhonha.

National Geographic BBC News El País Folha de S. Paulo The Intercept Mongabay HuffPost Greenpeace MASP BnF IMS
Equipe

Ficha Técnica

Idealização, realização e fotografiaIsis Medeiros
Curadoria, edição e tratamentoCarol Lopes
Produção, direção e iluminaçãoValéria Boaventura
Produção local e iluminaçãoJosé Uelton (Chico)
ExpografiaPaulina Loretta
DesignHenrique Lizandro
Design do siteAndré Correa
Assessoria de imprensaElaine Leme
Fotografia (documentário)Augusto Gomes e Isis Medeiros
Imagens adicionaisFrederico de Castro, Pedro de Philips e Marcelo Cruz
Edição e finalizaçãoLilian Sara
ImpressãoArtmosphere
MoldurariaHugo Baumacker
Gratidão

Agradecimentos

Alecson, Bernardo Marques, Danilo Borges, Diego Fresco, Dilermando Correa, Dostim, Ernani Calazans, Família (Uelton Gomes, Cleonice, Zé Maria, Tozin, Marina, Raiane, Pedro Henrique, Gustavo e Warley), Geralda Chaves Soares (Gera), Geraldo Silva, Irã Pinheiro, Isaías, Jacqueline Neiva, João Jacinto, José Nelson, Klemens Laschefski, Lauanda Lopes, Lira Marques, Lucas Hallel, Maíra Erlich, Morgana Mafra, Nádia e Mariuton, Pablo Albarenga, Pablo Pinheiro, Raquel Oliveira, Tatiana Sena, Teca, Ulisses Mendes.
Agradecimentos às Organizações
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – Campus Araçuaí Cáritas Diocesana de Araçuaí Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) Diocese de Araçuaí Observatório da Mineração Instituto Camila e Luiz Taliberti Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (GESTA/UFMG) Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)

À todo povo do Vale do Jequitinhonha
e a quem ousa defender essa terra.

Este projeto foi fomentado pelo Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia — 17ª Edição